quinta-feira, 9 de abril de 2020

A descoberta do mundo

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem
de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu
lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
− Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
− Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
− Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha
cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras
crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa
cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
− E agora que é que eu faço? − perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
− Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga
a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
− Acabou-se o docinho. E agora?
− Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha
que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a
vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava
obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
− Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
− Já lhe disse, repetiu minha irmã, que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir
mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não
perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra
da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

06 de junho de 1970
(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo – crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.289-91)

terça-feira, 7 de abril de 2020

Fragmento poema Dispersão


Perdi-me dentro de mim 
Porque eu era labirinto, 
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim. 

Passei pela minha vida 
Um astro doido a sonhar. 
Na ânsia de ultrapassar, 
Nem dei pela minha vida... 

Para mim é sempre ontem, 
Não tenho amanhã nem hoje: 
O tempo que aos outros foge 
Cai sobre mim feito ontem.

(CARNEIRO, Mário de Sá. Obras Completas de Mário de Sá-Carneiro – Poesias. Lisboa: Ática, s. d. v. 2)

domingo, 22 de março de 2020

HOMENS MORREM, IDÉIAS FICAM

HOMENS MORREM, IDÉIAS FICAM.

Morte a noite morte ao dia, a qualquer hora ela pode chegar.
Alerta vida minha, presta atenção para que ela não te pegue desprevenida.
Morte a noite morte ao dia, quem sabe a qual instante?
Mesmo ao longe correr, da onde ninguém o possa ver.
Lugares distantes ela a pode alcançar.

sábado, 12 de outubro de 2019

Passam se os dias

"POIS TODOS OS NOSSOS DIAS VÃO PASSANDO NA TUA INDIGNAÇÃO.
ACABAM - SE  OS NOSSOS  ANOS COMO UM CANTO LIGEIRO". SALMO 90.9

A VIDA PASSA , PASSAM SE OS OS ANOS.
A NOSSA EXISTÊNCIA FINDA .
A NOSSA FORÇA E RESISTÊNCIA ACABAM.
A FORMOSURA SE VAI , E AS RUGAS SE VEEM.
OS PENSAMENTOS SE ESVAEM.
OS DESEJOS FICAM  ESCASSOS.
E O FIM.
 

Sobre as ondas



La no alto mar.

Onde os meus pés podem falhar.

Me leva nos mais altos lugares.

La onde minha fé estava em alta.

Seguro em ti sobre as ondas caminharei.

Eleva os meus olhos em direção a ti.

Minha mente volta somente para tua ordem.

Vem anda sobre as águas filho meu!

E tua palavra me traz ação.

Usa somente tua fé , você me diz.

Esquece as ondas.

Fé mais fé.

Experimente andar sobre as águas sempre.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Coexistência

Somos todos personagens dessa coexistência. A onde é preciso paciência para suportar as agruras e as desventuras dessa epopéia chamada vida. Olha para o lado vê o outro personagem. Essa história não é contada sozinho, ainda que por um instante no meio do caminho parecemos estar.
Tomar as rédias, lápis, compasso, caneta , tinta e papel, seja lá o que para escrever uma história de final feliz ou um início melhor ainda, pra quem não acredita que tudo se acaba no ponto final. Assim continua as reticências, dessa coexistência, aonde somos todos personagens.